Conto: Sem Sapatos

— Senhor?

O presidente fitou o assistente com olhos um pouco menos astutos do que o habitual. Demonstrava cansaço, um cansaço maior do que uma noite de sono em lençóis de seda importada ou duas semanas de férias em Dubai poderiam curar. Mas conseguiu imprimir no olhar sua silenciosa pergunta ao rapaz, como fazia tão habilmente há anos.

— Precisa de alguma coisa? Café?

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Conto: Do Meu Avô

Memórias infantis é um assunto que me é muito caro. E eu misturei algumas (minhas e de outros) para esta história…


Do meu avô, tudo que restou foi a coleira de seu cachorro.

Não que essa seja sua única herança, longe disso. Meu avô deixou-nos sua casa, um carro que responde mais pelo termo “velho” do que “antigo” e também a moral mais sólida que uma montanha. Eu sentia medo, respeito e amor por ele.

Lembro-me a primeira vez que senti medo dele. Devia ter perto de seis anos de idade… não era mais do que isso porque eu me lembro que ainda não sabia ler, e tinha uma imensa vontade de aprender. Todo aquele mundo de placas e cartazes era um mistério tentador, como se guardassem os segredos de uma civilização perdida. Me fazia sentir como o próprio Pennsylvania Smith naqueles desenhos de aventura que eu tanto gostava. Lembro-me de repetir a cena das pedras rolantes com meus brinquedinhos e bolinhas de gude – outra brincadeira que eu tanto adorava. E era isso que eu fazia naquela tarde quente de férias, jogava bolinhas de gude em volta da árvore no terreno baldio da esquina, junto com o Hugo e o Joãozinho.

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Conto: Sinal

Escrevi este pequeno conto na época que participava de uma comunidade de contos na antiga rede social Multiply. O objetivo era sempre escrever alguma história com base em uma palavra-chave que mudava a cada semana, e no caso deste é justamente seu título.


“Fique em casa.” – ela ainda ouvia a voz do médico enquanto trancava a porta. “Pode ser que demore daqui por diante. Nós ligamos para você assim que… se houver mudança no estado dele.”

Ela ainda havia argumentado, mas a assistente social convencera-a de que seria melhor assim, e ela não lutou mais. Seu coração ainda estava apertado com as palavras anteriores do médico, a notícia que ela ouvira falar tantas vezes, em filmes, mas que nunca imaginara a real sensação. Engoliu saliva e jogou as chaves sobre o sofá. O corpo pedia por um banho, mas pedia com mais vontade ainda por cama. Ela deixou-se desabar sobre a colcha mal-arrumada.

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Filme: Donnie Darko

Ficha Técnica do Filme

(AVISO: Esclareço que esta análise foi feita baseada na Versão do Diretor do filme)

Em certo momento da história, diante da insistência de uma certa personagem em classificar a vida em conceitos simplórios, o protagonista de Donnie Darko se enfurece e tenta explicar que todas as nuances da existência não podem ser colocadas em apenas dois lados do espectro. Curiosamente, este filme também se encaixa exatamente na mesma categoria, exibindo tantas facetas que seria um pecado reduzí-lo a classificações básicas.

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Curso de Teoria, Linguagem de Crítica Cinematográfica

Onde está o Wally?

Sei que o objetivo primário deste blog é divulgar meus humildes contos de ficção. Contudo, não vejo problemas em também divagar um pouco em dissertações esporádicas, especialmente aquelas que envolvem algum tipo de manifestação artística (como eu fiz neste post, e a relação entre eles é curiosa). Peço desculpas se tocou a campainha procurando uma história. Dentro em breve voltaremos à nossa programação normal. Bem, não totalmente.

Muita expectativa e pouca explicação, ok. Então vamos começar: entre os dias 14  e 18 de Maio, eu participei do Curso de Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça. Para quem não conhece, ele é o fundador de um dos mais tradicionais sites da Sétima Arte do país, o Cinema em Cena, e ministra esse curso já há alguns anos. Eu devo dizer que, como admirador do trabalho do Pablo há uma década, estava aguardando ansiosamente a oportunidade de participar deste já conceituado curso. E não me arrependi.

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Conto: O Certo e o Necessário

Este conto é livremente inspirado nos acontecimentos da recente revista ACTION COMICS #900, aonde Superman resolve abandonar a cidadania americana. Também fizemos uma versão em áudio desse conto no podcast A Espiral #16, que pode ser ouvida aqui.


O vento frio e úmido de Gothan tocava suavemente o rosto de Superman. A noite ainda não caíra por completo, mas mesmo a luz do crepúsculo parecia ser engolida pelas nuvens. Diziam que aquela cidade era da noite e que mesmo o dia parecia uma sombra pálida do que deveria ser. Clark podia até entender esse sentimento, mas não compartilhava dele. Aprendera ao longo da vida a sempre ver as coisas como elas realmente eram.
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