Sobre amores

Talvez a coisa mais estranha e incompreendida no mundo seja esta coisa de “amor”. Porque amor, no sentido mais simples, é um sentimento. E, Infelizmente, a ideia de sentir algo se torna mais complexa e profunda do que deveria ser.

Pessoas, humanidade em geral, tem se desenvolvido ao longo das eras motivados mais por seus sentimentos do que por sua inteligência. Sejamos razoáveis que “sentir” é exponencialmente mais motivador do que qualquer conhecimento adquirido. Nações levantam-se e caem pelos sentimentos de ambição de líderes, e não por seu raciocínio estratégico.

Mas este lance de “amar” é a parte do sentimento humano que mais confunde, complica, amplia, difunde…e mata. Porque amar de verdade alguém envolve olhar para outro, querer o bem, querer auxiliar, esquecer de si. No meio de tudo isso, as pessoas confundem amor com qualquer outra coisa, inclusive com uma espécie de amor egoísta que só olha para si.

No momento em que você acha que ama alguém, mas está com esta pessoa por sua própria causa (independente de como o outro esteja), você não é apaixonado, você não está amando e tampouco é alguém nobre. Você é um egoísta. Quando você não “se vê mais sem aquela pessoa”, independente do afeto e carinho, você é um comodista. Se você quer colocar aquela pessoa em uma redoma de vidro, você é um pirado.

Amar significa libertar e saber que, se é de verdade, nunca estará longe. Significa se sacrificar e algumas vezes sujeitar-se a coisas que normalmente você não faria, apenas pela satisfação de ver o outro feliz. Significa se importar de forma simples, sem interesses escondidos ou sem esperar um retorno.

Amar é o mais simples, mais profundo e mais evidente traço de Deus em nós. Porque nós, caros humanos, não somos capazes de algo tão belo. Não é originalmente nosso, sem duvida, isto foi importado e implantado em nós.

Um mês

Demorei um mês para tomar coragem. Um mês.
Talvez porque sempre é difícil retomar e ver uma coisa que te dói. Talvez porque eu precisava deste tempo para pensar o que escrever. Apesar de muitas vezes meu luto quieto, entre chorar sozinha e evitar criar um peso aos outros, possa ter sido considerado como indiferença, levei um grande golpe que me deixou no chão.

Faz um mês que perdi alguém importante para mim.

Alguém, mal intencionado, pode chegar aqui e me censurar, dizer que esta pessoa não era tão importante assim. Mas neste mês, do fundo do meu coração, refleti na sua importância. Ela, que me ensinou tantas coisas, algumas bestas, outras extremamente intelectuais, fez tantas marcas em mim que já cansei de contar. Se discutimos Freud, ou apenas a importância de guardar o potinho do requeijão, não importa.

Ela mudou a minha vida em coisas pequenas e grandes. Desde ter onde morar até a maneira de armazenar alimentos. Ela me ajudou em algumas das lutas mais difíceis que tive, algumas que terei de continuar trilhando sem ela. Ela me permitiu xingar e aconselhar, e apesar de ser muito mais velha do que eu, aceitou muito bem quando eu a repreendi. E me repreendeu também, sempre que foi necessário.

Ela me incluiu no rol de familiares e fez uma marca tão profunda que me fez elevá-la a condição de família também.

Tive ela por muito tempo ao meu lado, tive de ficar muito tempo ao lado dela. Fiz visitas, no hospital ou para tomar um café da tarde. Estive com ela quando precisou. Ela esteve comigo quando precisei. Trocamos promessas e orações. Ela me deu esperança, alegrias.

Há um mês ela não está mais aqui. Eu sabia que não teria por muito tempo, mais ainda assim foi duro – e ainda é. Mas me consola que disse para ela em vida a importância que ela tinha para mim.

Obrigada, tia Ane.

Felicidades da corrida, dores do excesso e…pão

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Sexta-feira. Gosto de iniciar o dia com uma série de exercícios. Quando termino, estou pronta para iniciar o trabalho, almoço, contatos e tudo mais o que vier. Mas não foi o que aconteceu nesta sexta.

Depois de quase uma semana com dores moderadas no joelho, tive uma crise de dor forte. Aos 12 anos fui diagnosticada pela primeira vez com tendinite. Uso excessivo e prolongado de uma adolescente que chegou a fazer exercícios 5 vezes por semana, mais de uma vez ao dia.

Como já tantas vezes contei neste blog, tenho um certo descontentamento com meu corpo. Luto para mantê-lo como gosto: principalmente, saudável. Amo fazer exercícios e, quando pego o ritmo, não paro. Agora, depois de alguns bons quilos perdidos (retornando a um peso que não tinha há anos!), estou feliz com a corrida. Sinceramente, depois do histórico de dores no joelho, bronquite (sinusite, rinite…) e uma descrença própria na minha capacidade, não imaginava ser possível correr. Mas, quem diria, eu consigo!

Porém, mais uma vez esbarrei no mesmo problema: excesso. Lá estava eu praticando exercícios cada vez mais puxados, 5 vezes por semana. Fui muito rápido, avancei muito depressa, não respeitei o ritmo do corpo – que cansou quando era adolescente, imagina agora que já acena para os 30? Parada obrigatória. Alguns dias de joelho para cima e depois um dia de exercício de reforço. Uma volta moderada. Vou desacelerar.

Quem me conhece e sabe o gosto que tenho pela superação individual, já entende o quanto isto me chateia. E ainda mais com dor.

O que fazer em uma sexta com dor e chateada? Pão. Sim, pão. Pão me permite sovar, moldar, criar, experimentar e fazer algo diferente. Abrir massa e criar um pãozinho bonitinho. Ver crescer. Sentir-se exitosa. Pão!!!

E não é que ficou bom?

Se o leitor ficou curioso, a receita é simples e está no CyberCook. A minha única modificação foi não utilizar toda a farinha (sempre deixo um pouco reservada, para dar o ponto) e nem toda a água (pelo mesmo motivo). Gosto de adicionar ainda uma colher de sopa cheia de leite em pó, para ajudar na textura.

Estranhamente surpreendente

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Crescer dói.

E ponto.

Não foi nada fácil deixar a vida confortável que tinha na época do segundo grau e ir para a faculdade. Passei a ter compromissos, estudar todos os dias, fazer meu próprio horário, ir atrás de estágio e trabalhar. Também não foi fácil depois de formada procurar meu caminho. E ainda não foi NADA fácil casar e ter minha vida para cuidar.

Isso foi tão difícil e as vezes admiro a beleza do meu crescimento. Não precisei pular etapas, mas cada nova conquista me levou a um novo nível.

Quando você está no meio do caminho que leva ao crescimento, tudo parece difícil e as vezes até impossível. A satisfação ao superar obstáculos, contudo, é mágica e faz você pensar que sim, era possível. Como diria aquela frase, já atribuída a tantos e dos quais não sei a autoria correta: “Sem saber que era impossível, foi lá e fez”.

No início, nem você aposta muito em você. Você aposta às vezes num fracasso iminente, numa tentativa sem saber o que vai dar, numa ideia sem corpo de uma possibilidade. O estranho é que a vitória diante do desafio é surpreendente. É estranhamente surpreendente.

Não sei os desafios que a vida me trará. Tenho 28 anos e sei que há grandes probabilidades de serem diversos, imensos, aparentemente intransponíveis. Mas são possível. E lá vou eu me surpreender novamente.

Sem comentários!

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Ainda estou tentando entender o fenômeno que acontece (principalmente) no Facebook: você coloca um comentário qualquer de sua opinião pessoal e sempre alguém sente necessidade de comentar.

Ora, se fosse um simples comentário, estaria ok. Contudo, geralmente posts de opinião polêmica levam pessoas a comentar de forma contundente sua opinião contraria. E por “contundente” entenda que estou abrangendo desde uma observação enfática a uma agressão.

Não é raro eu encontrar amigos com opiniões contrárias às minhas. As vezes, tão contrárias que me admiro profundamente. Antes de expressar minha posição, sempre penso se tenho algo a dizer para enriquecer a conversa ou para auxiliar meu amigo. Se não, fico na minha. Qual é o propósito de eu simplesmente querer impor ao meu amigo uma posição dos quais facilmente percebo que estamos divergindo e que provavelmente criará uma discussão desnecessária?

Certa vez ouvi que opinião é como bunda – cada um tem a sua. Sair fuçando na dos outros não é muito educado. E o que cada um produz com a sua não lhe diz respeito. É simples.

Mas as vezes esta nova era de compartilhamento de pensamentos, opiniões, idéias e pequenas coisas bestas que não dizem respeito a ninguém nos faz ter a falsa percepção de proximidade, de intimidade. Algo que, em outros tempos, jamais meteríamos o bedelho agora se torna centro de discussões com 10 pessoas. Daí eu pergunto: por que?

Por que não voltamos a selecionar aquilo que vai para a internet? Por que não escolhemos o que vamos publicizar? Por que temos de falar tudo o que vem a mente em uma rede e, principalmente, por que temos de comentar algo que alguém escreveu e que não é agradável a nós?

Em suma: QUEM PEDIU NOSSA OPINIÃO?

Precisamos compreender que desabafos via Twitter, Facebook ou qualquer rede social não é convite para nos manifestarmos. As vezes, passar despercebido por um post estranho ou de opinião contrária evita muitas discussões para você. Guardar a opinião também pode ser um salvador de dia.

É claro, algumas opiniões podem ser tão agressivas à nós a ponto de apenas o fato de ela existir já nos é agressivo. Faça como eu: unfollow, retirar do feed de notícias, marcar como “conhecido” e, em casos extremos, desfazer a amizade e bloquear são remédios poderosos.

Na duvida, sem comentários!

(In)sana

“Talvez eu seja o mais louco dos seres humanos!”, grito eu, para mim mesma, na grande mansão dos meus pensamentos. Em conversas intermináveis comigo mesma, disserto sobre a vida, universo e tudo mais. Sim, no estilo de Adams. Divago sobre quem sou e se há, no fundo alguma razão para tanta filosofia interna.

Às vezes é tanta ideia, pensamento, reflexão que é difícil se concentrar. Trabalho, vida em geral…tudo fica em segundo plano enquanto minha mente repete seus questionamentos e conclusões.

“Eu acho que preciso de terapia”, digo para mim. “Ou talvez não”, respondo. Há alguma contra indicação em pensar? Em refletir. Em reviver ou pré viver os momentos que estão adiante, calcular movimentos e respostas? Não. Mas não estou bem certa disto.

Há momentos em que só queria um botão de “pause” para controlar minha mente. Dizer para ela não que há problemas, que pode descansar um pouco. Os pensamentos brotam como lava, queima algumas incertezas e criam tantas outras. Algumas vezes o resultado final é positivo, isto que me motiva a seguir.

Encho minha cabeça de livros – personagens, tramas, intrigas foras das minhas próprias. Será que se acalma? Não, a mente apenas tem mais fome, devora livros e pede mais! O que faço eu?

Sei que os pensamentos permanecem fortes. Não sei se já nasci assim ou se é resultado da alimentação com livros e exercícios de pensamento…mas ela é forte. Tem opiniões e vontades, é difícil de controlar (mas sempre tem um jeito para isso) e ainda sabe o que quer! Sim, no meio de todo este tornado há certezas e opiniões formadas sobre diversas coisas, bem instituídas e firmadas após tanta lava. Quase como uma ilha vulcânica. E como toda ilha vulcânica, um tanto rica e hostil.

Se estamos na mansão de meus pensamentos, há de se falar de sua própria Constituição. Nela diz: “Eu sou assim”. Não posso negar que toda esta loucura, ou sanidade estranhamente construída, sou eu. Me abrace por completo ou vá embora. É o que a placa diz.

(Eu, por aí) Resenha sobre “Uma força medonha” do C. S. Lewis e hábitos alimentares

Quando você ler “Eu, por aí” agora, vai já reconhecer que é um post que se destina a indicar os meus textos em outros blogs!

Nesta semana, temos:

A vida de alimentação saudável – e salada (eu no KomBlog)

[556 paginas] Uma força medonha – C. S. Lewis (eu no Leiteria)

Recomendo a leitura dos dois textos!

Momento da terapia com o bolo de laranja, aveia e açúcar mascavo

Não sei o que me atrai em fazer bolos. Desde pequena eu pegava o livro surrado de receitas tradicionais da minha mãe e explorava em busca de uma ideia de bolo a preparar. Hoje este livro é meu e ainda tenho prazer de folhea-lo em busca de idéias.
Querendo fazer um bolo com aveia, me enveredei em busca de uma receita. O livro, antigo e baseado em receitas de doces de Pelotas, tinha muitas receitas que continham cremes, nozes, avelãs, passas, figos e pêssegos…e poucas com os ingredientes que, de fato, eu tinha em casa. Andei por mais dois livrinhos amigos, pesquisei na internet e nada de encontrar A receita.

Na falta de uma, fui procurar uma receita adaptável ao que procurava.

Então, me dividi entre a ideia de fazer um bolo de laranja ou de cenoura. Procurei receitas de bolo de laranja e descobri milhares de possibilidades de fazer o bolo com casca. Taí uma coisa que me interessava – não gosto de desperdiçar alimento, geralmente procuro uma saída para cascas e folhas que sobram. Mas as tais receitas com casca não me agradavam.

Se posso dizer que em ALGO nesta vida fui influenciada pela minha sogra, foi na escolha da quantidade de ingredientes em uma receita. Dificilmente ela segue uma receita ao pé da letra quando tem um ingrediente em demasia. Se na receita tem 5 ovos, pode ter certeza que ela vai usar 3. 4 xícaras de açúcar? Não, 2 e meia! E assim a dona Angela vai cortando aquilo que ela imagina ser excessivo e transformando receitas ao seu paladar e ao seu próprio critério. Na onda dela, vou procurando receitas que tenham poucos ovos ou pouco açúcar, vou modificando ao meu critério.

Quando encontrei uma receita de bolo de laranja de liquidificador que usava 3 ovos (e não 4, como a maioria), achei que ela era perfeita para a adaptação. Eu queria incluir aveia, fazer o bolo com casca e adicionar o açúcar mascavo, trocando um pouco do açúcar mascavo, que além de não ser muito doce é mais saudável.

Sobre o açúcar mascavo, um dia conto o porquê virei fã. Agora, voltemos ao bolo.

A massa, apesar de parecer grossa, cresceu lindamente. Ao sair do forno, já era possível ver o quão fofinho era. A textura de cara me atraiu. Para completar a festa, uma calda de laranja…e tudo ficou perfeito. Cremoso, fofinho, delicioso. Amei.

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Segue então a receita adaptada:

Bolo de laranja, com aveia e açúcar mascavo

– 1 laranja inteira
– 3 ovos
– 1 xícara de óleo (usei óleo de arroz)
– 2 xícaras de farinha de trigo
– 1 xícaras de aveia em flocos
– 1 xícara de açúcar branco
– 1 xícara de açúcar mascavo
– 1 colher de sopa de fermento em pó

Pré-aqueça o forno. Lave bem a laranja e corte-a ao meio, no sentido inverso ao normalmente cortado para fazer suco. Com uma faça afiada, corte o “miolo” branco da laranja e descarte-o. Corte a laranja em cubos pequenos, sem descascar. Coloque os cubos de laranja, os ovos e o óleo no liquidificador e bata bem. Em outra vasilha, peneire a farinha. Adicione o fermento, a aveia e os açucares. Misture bem. Adicione a mistura batida no liquidificador e misture até incorporar bem. Coloque tudo em uma forma untada e enfarinhada. Utilizei uma forma redonda de furo no meio. Coloque no forno já pré-aquecido, fogo médio. Teste o ponto de cozimento com um palito. Depois de pronto, espere esfriar e desenforme. Enquanto esfria, prepare a calda:

Calda de laranja

– Suco de 1 laranja
– 3/4 de xícara de açúcar de confeiteiro (medida solta, não precisa usar demais!)

Coloque o suco em uma xícara. Complete com água, até formar a medida cheia de 1 xícara. Coloque em uma panela e junte o açúcar. Mexa em fogo baixo até ferver. Coloque ainda quente no bolo já desenformado.

Receita original no CyberCook.

O momento da desistência

Há uns muitos anos atras, recebi a indicação de um vídeo de comedia que falava de um tal de Joseph Klimbert. O texto engraçado da sketch tratava-se de uma pessoa que passava as mais estranhas dificuldades nesta vida mas que, ainda assim, mantinha-se firma e arranjando uma saída. Não vou contar o final, mas ele sempre encontra uma saída…mesmo que ela pareça impossível.

Confesso que eu gostaria de ter uma perspectiva mais Joseph Klimbert. Existem momentos em que chego a um ponto onde não vejo o que mais fazer. Não me sinto em condições e desisto.

Já ouvi que saber o momento de desistir é uma virtude. Ou um talento. Mas a verdade é que para uma personalidade perfeccionista como a minha, admitir que algo está prestes a entrar no ponto de desistência é revoltante. As impressões que ficam são a de que houve uma falha pessoal.

Nem sempre o fim, a desistência, significa que houve uma falha. Nem tudo está nas nossas mãos. E mesmo nas mãos em que acredito que tudo está…nem sempre o resultado é o que eu planejava.

A real é que dizer “aqui é o ponto onde desisto” também é relacionado a humildade. Entender que pelas suas próprias forças você não consegue resolver o mundo e que – graças a Deus – não é o seu dever o de redimir a humanidade.

Tenho passado por diversos momentos em que dou o meu sangue para ajudar os amigos. Nem sempre eu posso. E há os casos onde você sabe que não pode fazer mais nada. O que me resta pensar é que admitir que estou desistindo de alguém é também admitir aos outros que tenho mais tempo e amor a investir. Talvez seja o momento adequado, pois sei de alguém que está precisando muito de mim.

Então, de certa forma, encontro consolo ao lembrar que desistir pode ser realocar forças. Há uma saída.

Marco Feliciano ERRA (e feio) no vídeo sobre a cura gay

Diante da imensa crítica da imprensa e do público, o deputado Marco Feliciano se propôs a explicar a questão da “cura gay”. Criou um vídeo sob o pretexto de explicar em sua totalidade o PDC 234/2011, de autoria do deputado João Campos.

O vídeo inicia com trechos de programas de televisão descontextualizados. Há erros dos mais diversos entre as notícias, que como sabemos bem tem sido veiculadas da forma mais banal. Não é um problema com o projeto em si, ou o ativismo gay, não se iluda. O problema é cultural – as mídias estão “facilitando” a vida do espectador. Recebemos informações erradas diariamente? Sem dúvidas. Ali temos alguns exemplos. Outros, entretanto, nem sequer conseguimos perceber a mensagem por completo. Este início mais me parece como uma apresentação da situação a fim de que aquele que assiste o vídeo sinta-se ameaçado pela imprensa. Não aceite nada, NADA, sem questionar – se a imprensa tem por diversas vezes feito um trabalho “porco”, não é muito diferente do trabalho que este vídeo se propõe já no início.

Marco Feliciano inicia a explicação de quem, de fato, é o autor do projeto. Fala que o deputado João Campos recebeu reclamações de profissionais da psicologia que foram cassados e de pessoas que não conseguiam obter o tratamento desejado em relação à sua homossexualidade. Temos aqui dois dados, infundados e impossíveis de serem verificados.

Aí começa o erro GRAVE: Feliciano diz que o projeto apenas “susta a aplicação do parágrafo único do artigo terceiro” da Resolução nº 1/1999 do Conselho Federal de Psicologia. MENTIRA. O projeto quer não somente o parágrafo único sustado, como também o art. 4º.

Deixe-me lhe explicar uma coisa. O parágrafo único do art. 3º desta resolução diz o seguinte: “Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura da homossexualidade”. Feliciano rebate a idéia de que não entende o porquê do apelido “cura gay”. Bem, é simples – se nada IMPEDE que eventos e serviços que proponham a cura da homossexualidade sejam realizados, teremos diversos profissionais que criarão, sim, um tratamento de “cura gay”. Se até o momento há este impedimento, ficará liberado ao profissional da psicologia que realize a cura de homossexuais.

Estamos esquecendo que o projeto também tem a intenção de sustar o art. 4º, que diz “Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica”. Resumindo: psicólogo não pode ir à TV ou qualquer outro meio para dizer que homossexual é doente, de forma a reforçar os preconceitos que já existem em nossa sociedade. Qual é o problema deste artigo? Por que ele deveria ser sustado? A causa me parece ser simples: se abre a possibilidade do desenvolvimento de tratamentos para a “cura” homossexual, aqueles que a promoverem desejarão falar abertamente pelos meios de comunicação em massa.

Mas, retornemos ao vídeo.

Marco Feliciano permanece falando sobre a questão de pauta, votação e sobre normas da votação. Isto não é polêmico, exceto pelo ponto em que se coloca como vítima.

Em seguida, mais um absurdo. Feliciano diz: “e é este parágrafo único aqui que o projeto do deputado João Campos arranca da resolução. ‘Por que, pastor?’ Porque psicólogo, ele é um profissional da área da saúde que estuda a mente e está sempre em evolução. Aqui ta proibido o psicólogo de propor tratamento, ou seja, o psicólogo não pode mais estudar”. Propor um tratamento e estudar são coisas totalmente diferentes. Propor um tratamento é uma ação direta ao paciente, estudar (como em toda a outra ciência) limita-se ao campo teórico. Por isso, Marco Feliciano está mentindo.

Marco Feliciano fala a frase verdadeira de que não há um consenso mundial sobre a questão psicológica da homossexualidade, mas adere a ela uma mentira (técnica de argumentação, não se iluda), dizendo que este parágrafo impede que qualquer profissional estude o assunto. O psicólogo pode estudar o quanto deseja, contudo não pode indicar a um paciente um tratamento. Não é difícil de se entender.

Feliciano continua utilizando técnicas de dialética ao acusar o parágrafo único do art. 3º da Resolução 1/1999 do Conselho Federal de Psicologia como “maldito”, e como barreira de estudo. O profissional da psicologia não tem nenhum dos seus direitos limitados – ele apenas é limitado de participar de eventos ou propor tratamentos AO PACIENTE.

“Uma vez arrancando ele, desaparece a cura de gays”. Correção: desaparece a PROIBIÇÃO da cura de gays…em suma, o que teremos serão novos ditos “tratamentos” para esta cura. Não se iluda.

O pastor ainda diz que ao arrancar este parágrafo, retira-se os empecilhos de continuar estudando “até que chegue-se ao denominador comum”. Ora, psicologia não é uma ciência exata para que todos cheguem à mesma conclusão!

E ainda, apesar de dizer que não há conclusões dos estudos da psicologia, o pastor ousa afirmar (como se obtivesse grande estudo) que as pessoas não nascem gays. Não tenho o poder de opinar nesta questão, mas também não posso afirmar nada sobre, como o fez Feliciano.

Marco Feliciano diz que isto trata-se do “profissional, que tem o direito para estudar o assunto”. Mais uma vez – qual é a limitação presente no momento? Relembramos o texto do famigerado parágrafo único: “Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”. Em que ponto limita o estudo, ou a pesquisa? A limitação está na ação direta com pacientes (eventos e serviços).

Neste ponto do vídeo Feliciano relembra que há, sim, o art. 4º na proposta. Falaciosamente, aponta apenas o primeiro passo, referente à expressão de opinião pública.

O direito à liberdade de expressão, que é Constitucional, por si já sofre limitações.

Feliciano aponta apenas o art. 5º da Constituição como base. Entretanto…qual inciso? O artigo 5º de nossa constituição federal
apresenta 77 incisos, que tratam dos mais diversos direitos individuais. O ponto chave da liberdade de expressão está no inciso IV: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;”. O artigo 4º da já citada resolução tem uma das mais justas limitações à liberdade de expressão – evitar o preconceito. Vamos rever seu texto:
“Art. 4. – Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica.”
Portanto, este artigo não viola o princípio da liberdade de expressão, mas impede que aja o reforço de preconceitos contra homossexuais, e ainda o preconceito direcionado ao fato de supostamente terem uma desordem psíquica.

“Não há diálogo”, diz Feliciano. Me faz parecer que o diálogo em que se busca pode ter o fim danoso de promover o preconceito. Não consigo admitir isso como liberdade de expressão.

O vídeo passa a mostrar uma reportagem sobre a troca de sexo, demonstrando que ao realizar tal procedimento cirúrgico, o paciente deve passar por tratamento psicológico. Mas, até o momento a imprensa era vilã – passa a ser prova. Dificil de entender.

Mais uma vez há trechos de vídeos da psicóloga Marisa Lobo, que defende o projeto tratado. Nenhum dos dois trechos traz informação suficiente para defender a idéia do projeto, apenas demonstrando que esta profissional não acredita em cura de homossexuais. Não há argumentação, apenas algo como o seu “aval”.

O trecho seguinte acusa o programa CQC de manipular entrevista. O mesmo pastor Marco Feliciano que antes levanta a bandeira da liberdade de expressão, critica a posição livre da imprensa?
Reforça-se mais uma vez os vídeos de reportagens diversas, sendo a seguir comentado pelo deputado como “desonestidade”. Tal manobra, com o reforço do que já no início havia se mostrado, parece um destaque aos veículos de comunicação – podendo entender até mesmo como uma teoria da conspiração.

Vídeos de manifestações são utilizados para que Feliciano aponte-se como bode expiatório para a imprensa, como forma de tirar o foco dos reais problemas do país. Mais uma vez, parece que esta vitimização e teorias da conspiração não tem um fundamento concreto.

Apoia a manifestação de forma política (sim, política), como – mais uma vez – técnica de argumentação para angariar opinião positiva.
E a técnica de argumentação não termina aqui. Já que a imprensa não lhe agrada, ataca-a relembrando como foi imparcial diante dos protestos. Ora, o deputado esquece que ele mesmo está manifestando o apoio aos protestos que estão contra sua pessoa e contra este projeto que vem comentar – mas não revela esta face dos protestos!

Relembra que o projeto “apaga do conselho de psicologia federal a palavra (sic) ‘cura da homossexualidade’”. O deputado está errado, já que corta a proibição de que um tratamento seja desenvolvido para a cura. A cura sai do papel, entra no mundo.

Em seguida, um trecho de entrevista de Silas Malafaia é mostrado. O pastor Silas Malafaia afirma sem bases que um paciente em conflito não poderá buscar o tratamento psicológico. O regulamento, como já foi demonstrado em mais de um momento neste texto, não proíbe o tratamento de homossexuais, apenas o tratamento (em forma de eventos e serviços) que busquem sua CURA.

Um trecho do programa “Entre Aspas” é apresentado. Mais uma vez, mídia positiva. Nos deparamos com mídia que pode ser vilã ou amiga, conforme aquilo que diz. Não vejo razoabilidade.

O deputado ainda diz categoricamente “Quem falou em cura gay foi o Conselho federal de Psicologia! Foram eles! Tá aqui! Eles falaram de cura gay! Está ouvindo direitinho aí (Tapa na bancada) você que fica falando mentiras? Meu sangue sobe aqui! Nós nunca falamos de cura gay! Nós nunca falamos em cura gay! Quem fala em cura gay é o próprio conselho federal de psicologia e nós estamos arrancando desta resolução a palavra (sic) ‘cura gay’ porque não existe”.

Sim deputado, a resolução fala sobre cura gay. Proíbe que hajam eventos ou serviços que promovam tal cura. E o senhor, ao querer tirá-la, libera a qualquer profissional para que desenvolva, que crie e que traga à existência uma cura gay.

Feliciano tira mais uma vez o foco da discussão ao comentar o estatuto do nascituro, com uma música dramática de fundo afirma que “a vida começa na concepção”. Por mais que eu mesma entenda desta forma, nossa sociedade jamais discutiu este conceito e, portanto, não se pode afirmar de forma categórica. Aponta apoios e ainda diz que o projeto de lei foi apelidado de “bolsa estupro”. Maldosamente aponta o apelido dado a UMA definição deste estatuto como se todos assim referissem o texto completo.

O deputado encerra dizendo que não aguenta mais as injustiças e a utilização das pessoas como massa de manobra. Mas ao mesmo tempo parabeniza quem é militante da causa homossexual – diga-me se não é argumentação?

Caro Marco Feliciano, já conheço sua pessoa e seus argumentos há tempos. Tudo o que vi neste vídeo é manipulação e como pude provar de forma simples, não mostra a realidade. Se quer que a mídia pare de mentir, comece parando também.

A imperfeita face, refletida no espelho. Uma versão que sorri sempre, expressa com cautela, escreve intrépida mas que nem sempre é a original, entenda. Alguém que quer se expressar, mas sem ofender...mesmo a quem não ama. Buscando compartilhar o dia-a-dia - ou não! ;)
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